17.10.06

O ZAHIR
O Zahir era a fixação em tudo que havia sido passado de geração a geração, não deixava nenhuma pergunta sem resposta, ocupava todo o espaço, não nos permitia jamais considerar a possibilidade de que as coisas mudavam.
O Zahir todo-poderoso parecia nascer junto de cada ser humano, e ganhar sua força total durante a infância, impondo suas regras, que a partir de então serão sempre respeitadas:
Gente diferente é perigosa, pertencem à outra tribo, querem nossas terras e nossas mulheres.
Precisamos casar, ter filhos, reproduzir a espécie.
O amor é pequeno, dá apenas para uma pessoa e olhe lá ; qualquer tentativa de dizer que o coração é maior que isso é considerada maldita.
Quando nos casamos, estamos autorizados a tomar posse do corpo e da alma do outro.
É preciso trabalhar em algo que detestamos, porque somos parte de uma sociedade organizada, e se todos fizerem o que gostam, o mundo não anda pra frente.
Temos que comprar jóias ; nos identifica com nossa tribo, assim como piercings identificam uma tribo diferente.
Devemos ser engraçados e tratar com ironia as pessoas que expressam seus sentimentos ; é um perigo para a tribo deixar que um de seus membros demonstre o que está sentindo.
É preciso evitar ao máximo dizer "não", porque gostam mais da gente quando dizemos "sim" ; e isso nos permite sobreviver em um terreno hostil.
O que os outros pensam é mais importante do que sentimos.
Jamais faça escândalos, pode chamar a atenção de uma tribo inimiga.
Se você se comportar diferente, será expulso da tribo porque pode contagiar os outros e desintegrar o que foi tão difícil de organizar.
Devemos ter sempre em mente como ficar dentro das novas cavernas e se não soubermos direito, chamamos um decorador que fará o melhor para mostrar aos outros que temos bom gosto.
Precisamos comer três vezes por dia, mesmo sem fome; devemos jejuar quando saímos dos padrões de beleza, mesmo se estivermos esfomeados.
Devemos nos vestir como manda o figurino, fazer amor com ou sem vontade, matar em nome de fronteiras, desejar que o tempo passe rápido e a aposentadoria chegue logo, eleger políticos, reclamar do custo de vida, mudar de penteado, maldizer os que são diferentes, ir a um culto religioso aos domingos, ou sábados, ou sextas, dependendo da religião; e ali pedir perdão por nossos pecados, encher-nos de orgulho porque conhecemos a verdade, e desprezar a outra tribo que adora um deus falso.
Os filhos precisam seguir nossos passos, afinal somos mais velhos e conhecemos o mundo.
Ter sempre um diploma de faculdade, mesmo que jamais vá conseguir um emprego naquilo que nos obrigaram a escolher como carreira.
Estudar coisas que jamais usaremos, mas que alguém disse que era importante: álgebra, trigonometria, o código de Hammurabi.
Jamais entristecer nossos pais, mesmo que isso signifique renunciar a tudo que nos deixa contentes.
Escutar música baixa, falar baixo, chorar escondido, porque eu sou o todo-poderoso Zahir, aquele que ditou as regras do jogo, a distância dos trilhos, a idéia do sucesso, a maneira de amar, a importância das recompensas.



Creio que o texto dispensa complementos. Mas deixe-me dizer apenas uma coisa. Algo que faz parte dos meus dias, das minhas horas, dos meus pensamentos e da minha vida a todo instante. Eu tenho lutado incansavelmente para fugir do Zahir. Tenho vontades contrárias às que ele ditou, mas infelizmente nem todas posso fazer. Tenho chorado algumas noites por não ter tido escolha e ser uma mera participante e contribuinte do Zahir. As noites de lágrimas têm sido vazias. Os dias têm sido difíceis. As regras são poderosas. Tenho perdido pessoas, momentos, sorrisos e caminhos por causa delas. Mesmo assim vou seguindo adiante. Se eu conseguir me desconectar pelo menos 1% dessa pior parte de tudo que é chamado civilização, já terei sido um pouco eu mesma. Já terá valido a pena. Alguém já dizia: os sonhos nunca envelhecem...

menina de papel - 23:23
Agora o papel é seu...



5.10.06

É Mágoa

É mágoa, vou dizendo de antemão
Se eu encontrar com você
Tô com três pedras na mão
Eu só queria distância da nossa distância
Saí por aí procurando uma contramão

Acabei chegando na sua rua
Na dúvida qual era sua janela
Lembrei que era pra cada um ficar na sua
Mas é que até a minha solidão tava na dela

Atirei uma pedra na sua janela
E logo correndo me arrependi
Foi o medo de te acertar
Mas era pra te acertar
E disso eu quase me esqueci

Atirei outra pedra na sua janela
Uma que não fez o menor ruído
Não quebrou, não rachou, não deu em nada
E eu pensei, talvez você já tenha me esquecido

Eu só não consegui foi te acertar o coração
Por que eu já era o alvo
De tanto que eu tinha sofrido
Aí nem precisava mais de pedra
A minha raiva quase transpassa
A espessura do seu vidro

É mágoa, o que eu choro é água com sal
Se der um vento é maremoto
Se eu for embora, não sou mais eu
Água de torneira não volta
E eu vou embora
Adeus


É mágoa que ainda não foi embora.
Mas acredito. Qualquer dia desses ela vai...

PS:.Preciso de uma template nova. Ou de um blog novo.

menina de papel - 22:36
Agora o papel é seu...